Engenheiro

A competência do engenheiro, com 50 anos de carreira e mais de 3500 projetos assinados por seu escritório, respondia por obras entranhadas não apenas no solo como no espírito de São Paulo: o prédio do Museu de Arte de São Paulo (MASP), a cúpula e as torres da Catedral da Sé, o Planetário do Parque do Ibirapuera, o Paço Municipal, o edifício Casper Líbero.

A década de trinta havia registrado os primeiros grandes feitos da tecnologia local e o concreto armado começava a provocar sua grande revolução na engenharia do país. Provavelmente, o jovem Ferraz, criado num ambiente de engenheiros - além do pai, também seu avô, Manuel Rosa Martins, tinha a mesma profissão - acompanhava cada uma dessas conquistas com entusiasmo. Já aos onze anos, em simgela composição escolar, escrevia sobre sua admiração pela engenharia.

José Carlos de Figueiredo Ferraz formou-se em 1940. Em 1935, a construção da ponte sobre o rio Peixe em Herval, Santa Catarina, impressionava o mundo com o maior vão livre de concreto armado existente até então, com sessenta metros de largura, uma realização do grande engenheiro brasileiro Emilio Baumgarten. Quando Ferraz optou pela engenharia estrutural, também já contava atrás de si com outras obras importantes da engenharia nacional, ainda nos anos trinta.

O que em 1940 o formando Ferraz pressentiu, e tornou-se seu grande estímulo, foi "a liberdade de projetar e construir, a liberdade de criar". Somente a carreira desencadeada nesse grandioso cenário, em que a evolução da tecnologia do concreto se imbricava com a da engenharia brasileira e do próprio século XX, teria preenchido sua vida.

Na década de 50, o momento do país era propício a novas técnicas e Ferraz elegeu a protensão como alvo de pesquisa. O resultado foi a idealização de um sistema patenteado, inovador para a época. O processo consiste basicamente em obter aderência ao concreto por meio da calda de injeção. O exemplo mais significativo da adoção desse processo foi o prédio do MASP - Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista, obra iniciada em 1960.

Outra obra que Ferraz cita com entusiasmo foi o projeto que elaborou para a Catedral da Sé, no começo dos anos 50. A edificação estava incompleta e quase paralisada, faltando a construção da cúpula e das torres. "Os pilares eram de alvenaria de pedra e seu peso dava ensejo à ocorrência de recalques diferenciais", explica o engenheiro. A cúpula precisava ser calculada para que se evitassem fissuras futuras. Ferraz trabalhou então com uma espessura de 6 cm e vãos de 30 m, com apoio em oito pilares. "Mas fiz os cálculos como se estivesse sobre três pilares, para evitar fissuramento.

Não foi apenas em grandes obras que Ferraz atuou. Sua busca por técnicas simples levou-o a modificar a localização das caixas d'água. "Perguntei-me por que essas peças eram sempre enterradas", explica. Pesquisando, descobriu que as primeiras caixas ficavam no subsolo para impedir o acesso de animais. Pioneiramente, então, idealizou as peças elevadas. Ele se define como "grande propugnador" das barragens de concreto, como alternativa às de terra. "Dizia-se que barragens de concreto em arco eram difíceis de serem calculadas e executadas e provei que isso não era verdade." Como exemplo, cita uma barragem feita em Itapeva, no interior de São Paulo, com 50 m de altura e espessura de 4 m e 1,5 m no topo. "Uma folha de papel construída por colonos de fazenda sob minha orientação."

A busca da simplicidade quando possível, e das soluções tecnológicas adequadas ao país é enfatizada por Ferraz até hoje. Para ele, "tecnologia avançada" não é necessariamente sinônimo de soluções mirabolantes. "Tecnologia é a 'arte de fazer', mas não se confunde somente com requintes e grandes avanços." Ele faz questão de dizer que gerar tecnologia é a característica de um país avançado, em contraponto à definição às vezes presente na sociedade de que o estágio tecnológico superior depende da adoção de técnicas estrangeiras.

Nessa linha, Ferraz defende com veemência a engenharia consultiva brasileira, da qual é expoente. Ainda aqui a multidisciplinaridade que adotou em seu escritório foi fator fundamental para realizar as obras de consultoria. No Brasil, conforme sua opinião, a engenharia consultiva ainda é uma desconhecida. "Há casos" em que é destacada, mas não para ser exaltada e sim condenada e reprovada quando dos insucessos, dos quais é sempre tachada como responsável." Para ele, o êxito, quando alcançado, pertence ao cliente, na visão geral. Como uma atividade pouco reconhecida, a engenharia consultiva, para Ferraz, é também prejudicada por ocasião dos pagamentos a que faz jus pelos serviços prestados. Não tendo poder de "lobby", diz ele, fica postergada propositalmente, "purgando uma depressão que destrói sua estrutura, arrefece seus ânimos e decompõe seus quadros."

São inúmeras as obras de Ferraz no setor de transportes, abrangendo desde ferrovias e rodovias até metrô e hidrovia. Na sua tese de que o engenheiro deve identificar-se com as obras que executa, as ferrovias, em especial, lhe deram muito prazer. É até hoje defensor desse meio de transporte e não entende como pode estar tão desprestigiado no Brasil. "É ainda a solução natural para cargas pesadas, em que não há urgência de entrega." Um dos exemplos que cita para ilustrar a forma irracional com que a ferrovia é tratada é a estrada de ferro São Paulo - Rio, "claramente ociosa quando em paralelo corre a via Dutra, sempre congestionada." Ferraz viveu o boom rodoviário, mas nem por isso deixa de criticar o traçado das estradas que adentram São Paulo, causando sérios estragos. Para ele, as obras do anel viário - que circundará a capital paulista - são fundamentais para evitar o que chama de "agressão" à cidade.

Décadas de competência e talento técnico uniram o nome de Ferraz, sua empresa, seus sócios, funcionários, estagiários e todos os que com ele trabalharam, a grandes obras como o trecho da Serra da Rodovia dos Imigrantes (SP) - exemplo de construção majestosa, erguida quase toda sobre pilares para interferir o menos possível com a paisagem e a natureza; a Ferrovia do Aço (no trecho entre Belo Horizonte e Volta Redonda); a Ponte Internacional Tancredo Neves - Ligando o Brasil à Argentina; o sistema de saneamento e abastecimento do Alto Tietê (SP); o planejamento e edificação do Núcleo Urbano de Carajás (PA); a Siderúrgica de Tubarão (ES) e tantas outras.

(condensação livre de um texto de Silvana Assunção e material da revista "Construção" de dezembro de 1991)
(texto2.doc) RPG - 26/06/1997 (rev. 0)

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