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Ainda no terreno da ética, pode-se medir o rigor do comportamento do engenheiro em seu próprio território - a Figueiredo Ferraz Consultoria e Engenharia de Projeto.

José Lourenço Braga de Almeida Castanho, lembra que sempre que o presidente do Conselho Administrativo e fundador da empresa precisava um carro da firma para alguma necessidade pessoal - por exemplo, buscar ou levar um de seus amigos monges do Mosteiro de São Bento - nunca pedia o veículo diretamente ao setor de transporte. "Fazia questão, primeiro, de me comunicar, solicitando a autorização", conta Castanho.

Um tal exemplo é ainda pouco diante de outros mais expressivos, como quando transformou seu escritório numa sociedade com dois ex-alunos e estagiários: João Del Nero e o próprio Castanho. Ambos haviam começado a trabalhar com o professor em 1957. Em 61, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, enfrentavam com ele a primeira fase difícil nos negócios, nascida da crise política e Financeira que se instaurou no pais: bancos fechados, contratos suspensos etc. Preocupado, Ferraz chamou os dois engenheiros e disse: "Não quero perdê-los. É impossível, no entanto, remunerá-los com vencimentos integrais. Proponho então que de agora em diante vocês participem como meus sócios no escritório. Tenho uma fé imensa no país e em nosso trabalho. Vamos manter o "fogo aceso" que logo inverteremos a situação".

(A história e o diálogo estão no texto "Recordações: Caminhando com o Professor Ferraz", escrito em julho de 1994 por Del Nero).

Alguns anos depois, foi a vez dos outros sócios Mosze Gitelman e Aluízio Fontana Margarido. O professor Ferraz era um homem justo, tanto assim que, após sete anos de trabalho em seu escritório ele acordou com seus dois outros sócios (Del Nero e Castanho) a ampliação da sociedade e convidou o Margarido e a mim", conta Gitelman. "Em relação à visão social, defendia seus pontos de vista com ênfase independente das pressões que sofria. Às vezes, punha em risco a continuidade dos trabalhos da empresa em alguns órgãos responsáveis por políticas que combatia. Não dava trégua, não cedia, se estivesse convencido de que seu ponto de vista era o correto. Transmitiu-nos uma visão ética muito grande".

Não foi apenas o homem ético, voltado para o serviço à cidade e à cultura, que aceitou o desafio da construção do Masp. Foi também o jovem entusiasmado com as possibilidades abertas à engenharia brasileira de grandes estruturas nos anos 30, e que, às escondidas do pai, que teimava em vê-lo médico dava "piruetas" nos horários para seguir o pré-universitário da carreira desejada, ao mesmo tempo em que cursava o preparatório da Medicina.

Contava o próprio Figueiredo Ferraz que, certo dia, indo ao Colégio São Bento para pagar a mensalidade do pré-médico do filho, sua mãe, Julieta Martins de Figueiredo Ferraz, foi surpreendida com duas parcelas. A segunda, a escola cobrava pela freqüência do aluno ao curso da engenharia. Foi assim que seu pai finalmente tomou conhecimento e compreendeu sua atitude, liberando-o a seguir para fazer o que quisesse.

Conhecedor desse capítulo da juventude de Figueiredo Ferraz, o engenheiro João Del Nero assim explica a aparentemente estranha interdição à vocação do filho manifesta pelo pai, ele próprio engenheiro e dos bons - Odhon Carlos de Figueiredo Ferraz foi um dos pioneiros que ajudou a construir a malha ferroviária paulista: "O dr. Odhon, engenheiro brilhante (....) talvez se sentisse tolhido no exercício da profissão. Faltava ao país respaldo industrial para a construção de grandes obras. As grandes estruturas de aço eram importadas. A engenharia local pouco se desenvolvia assistindo estas construções", escreve na saudação que fez a Ferraz em 1988, dentro das homenagens prestadas por ex-alunos, quando da aposentadoria deste na Universidade de São Paulo.

RPG - 04/08/1997 (rev. 0)

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